sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

A dor que dói mais

Exatamente isso:

[por Martha Medeiros]



"Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.


Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.

Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.


Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua amando você.


Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.


 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Presença


[Leonardo Da Vinci]


"Para estar junto não é preciso estar perto,
e sim do lado de dentro." 



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[por Soriedem R. Belga Mota] 



Fernando tinha em si todos os sonhos do mundo,
esta Pessoa, por sua vez, todos os desejos.
Pois sim, tenho em mim todos os desejos do mundo.
Desejos cheios de vontades; vontades outrora já declaradas.
Desejo de discutir a complexidade dos assuntos mais densos,
desejo de soar como a mais doce das melodias,
desejo de ser a mais desejável das companhias,
desejo de romper em festa e sempre celebrar as honrarias suas,
desejo, acho que um dos maiores, de estar por perto.
Mas se nada disso me for possível, não será assim tão mau,
desejarei  apenas ser o abrigo para os dias de chuva,
o amparo dos momentos inglórios,
a fortaleza e o conforto necessários, 
mesmo quando desnecessários;
porque de todos os meus desejos, 
nenhum é tão forte e vivo quanto o de ser presente,
apesar da distância, estar não apenas perto 
e sim ao lado, assim, do lado de dentro.