quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Não ser

[por Soriedem R. Belga Mota]



Interessante como aquilo que alguém nos julga é, 
quase sempre, exatamente aquilo que não somos.
Já ouvi muitas vezes elogios a minha fortaleza emocional.
Mas ao que se referem?!
Ah, meus caros anjos negros, vós sabeis o quão
frágil é este espírito;
vós, companheiros únicos de meus dias pesados,
testemunhais toda minha angustia.

Não.
Nada há de admirável em minha caixa de Pandora sentimental.
Sou apenas uma criatura pequena que sofre, e muito!
Às vezes, a vida me dói tão intensamente que o agudo
lancinar dessa sensação me entorpece.
Sou ejetada para fora dos limites dessa caixa.
Fico à margem, observando tudo a distancia,
no vazio desse frasco orgânico saturado de conflitos.

Dói-me mortalmente a fome do mundo e não ter o
alimento suficiente e necessário para saná-la.
Dói-me a infância roubada das meninas sequeladas
pela exploração de corpos nunca desenvolvidos.

Dói-me a violência gratuita.
Dói-me a maldade por prazer.
Dói-me o cinismo das amizades de Grife. 
Dói-me a superficialidade da produção em massa e
da leviandade com que a chamam de arte.

É ridículo!
Será mesmo que não enxergam?
Arte não faz sucesso!
Não que não mereça, simplesmente não é possível,
porque arte é intimista, profunda e complexa demais
para ser apreendida por muitos.
Que dirá, então, ser apreciada?

Ah!
Dói-me muito.
Dói-me toda a pequenez do não pensar.
Dói-me o comportamento sem cor, cheiro e sons autênticos.
Dói-me a alegria empacotada nas prateleiras do Wal-Mart.
Dói-me a incompreensão, a hipocrisia e o desprezo.
Dói-me a mediocridade de nossas ações diárias.

E tudo isso, meu caro, o que me dói mais profundamente é
não ver sequer um pequeno incômodo, revolta, uma objeção,
uma contrariedadezinha que seja a me fazer companhia
na maioria dos semblantes daqueles, que para piorar, se
dizem tão humanos quanto eu.

Então me responda agora:
Onde mora minha fortaleza interior?!
Do que propriamente alguém poderia sentir de legitimo
orgulho em meu ser, se tudo que tenho são pedaços em
franco desfalecer de uma alma castigada e de um coração
tolamente crédulo e maltratado na história de sua
jornada terrena?


“É que a dor às vezes é tão forte, 
que tenho medo de deixá-la sofrer em público”

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