terça-feira, 16 de julho de 2013

Culto ao Cadáver Desconhecido

 [por Soriedem R. Belga Mota]

Curiosa a esquizofrenia do relógio da vida.
Um dia custa uma eternidade angustiante 
em suas cruéis 24 horas quando se espera por uma resposta. 
Aquele resultado que definirá se você passou no vestibular de medicina da UFCG, 

o aviso do voo que determinará se se seus pais chegarão a tempo para uma das 
solenidades da formatura, resultado do exame de gravidez, com o qual muitas aqui 
sonharão em alguns anos ou o resultado do exame que dirá se o câncer da "Gansa" 
regrediu completamente, se haverá mais tempo.
(E para nossa mais completa alegria, o compositor da  "dança da calvaria e do maléolo 

medial" estará conosco por muito tempo).
Curioso como o tempo é vagaroso.

Curioso como o infindável e agoniante tempo dessa espera em nada se assemelha 

com a frenética velocidade dos dias de sol, música, lágrimas e reencontros das férias, 
ou melhor, dos mini recessos da faculdade.
Tempo que corre ligeiro, tempo que se esvai entre os dedos como grãos de areia.
É o relógio de bolso do coelho da Alice.
"É tarde, é tarde", ele corre, "Já é muito tarde".
Curioso como o tempo é apressado.

Curioso como a vida vai findando.
Mas já?
Passou tão brevemente.
Quatro ou cinco décadas é rápido demais para se conhecer 

todos os sabores e os dissabores de viver.
Não era tempo de partir ainda. Ou não deveria ser.

Mas a nós aqui não cabe decidir sobre o Tempo.
Nem mesmo sobre o nosso próprio tempo temos controle.
A única opinião que vale é a do Senhor do Tempo.
Somente Ele, o poderoso Tecelão do Tapete da Vida,
é capaz de segurar a tesoura que corta os fios coloridos recém ajuntados 

na trama da existência.
E Ele pode cortar onde, como ou quando quiser.
Pois arbitrária e curiosamente, para Ele, os primeiros
segundos logo depois de nascer já é tempo suficiente para morrer.

Para nós, então, o que cabe ser feito?
Aproveitar cada novo fio que nos for presenteado.
E deles cuidar, sabendo o qual frágeis, valiosos e únicos são.

Para finalizar deixo um trecho do livro
O Futuro da Humanidade:

"Um dia todos nós vamos para a solidão de um túmulo.
Uma criança de um dia de vida já é suficientemente velha para morrer.
A morte é (parece ser) a derrota da Medicina.
Todavia, apesar das limitações da ciência, devemos usar todas as nossas habilidades 
não apenas 
para prolongar a vida, mas para fazer dessa breve existência uma experiência inesquecível.
Os médicos devem ser pessoas de rara sensibilidade, artesãos das emoções, 
profissionais capazes de enxergar as angústias, as ansiedades e as lágrimas por trás dos sintomas. 
Caso contrário, tratarão de órgãos e não de seres humanos.
Acima de tudo, os médicos, bem como todos os profissionais que cuidam da saúde, 

devem ser vendedores de sonhos. Pois, se conseguirmos fazer nossos pacientes sonharem 
ainda que seja com mais um dia de vida ou com uma nova maneira de ver suas perdas, 
teremos encontrado um tesouro que reis não conquistaram"

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